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Apostila Fundamentos de Oratória

ORATÓRIA SECULAR E ORATÓRIA SACRA

“A oratória é a rainha das artes, e o orador, o rei dos artistas!” Alves Mendes

Desde os tempos bíblicos, a arte da oratória teve papel de destaque na vida dos povos antigos. Os profetas hebreus eram verdadeiros artistas da palavra, cada um deles com sua especialidade. Isaías, por exemplo, era mestre no uso de figuras de linguagem e fina ironia. Jeremias enchia os discursos de emoção, como se pode ver em suas Lamentações. Malaquias era hábil no uso de perguntas retóricas. Cristo falava com autoridade, e Paulo era um orador erudito.
Do ponto de vista clássico, a oratória surgiu com Corácio, grego de Siracusa, que viveu cinco séculos antes de Cristo. Ao longo da história, a oratória teve grandes expoentes. Na Grécia antiga,, era ensinada pelos filósofos e praticada nos debates intelectuais e jurídicos. De todos os oradores gregos, Demóstenes foi o maior. Entre os romanos, a oratória era praticada por juristas e políticos e teve Cícero o seu expoente mais famoso.
De forma geral a oratória divide-se em: sacra e secular. Em nosso estudo vamos ver como os princípios gerais da comunicação se aplicam à oratória sacra, também chamada nos cursos de teologia de homilética.
Tanto na oratória secular como na sacra foi-se o tempo em que ser orador era falar bonito e gritar. Nessa fase da oratória estética e sonora, os melhores oradores eram os que falavam forte e com frases enfeitadas. Mas essa época já passou há muito tempo, embora alguns oradores de hoje ainda permaneçam ingenuamente nessa fase. Entre esses “ingênuos”, as maiores vítimas são os políticos e pregadores, alguns dos quais abusam da paciência dos ouvintes.
Hoje o que importa não é o volume ou o enfeite, mas o conteúdo e a forma. Pode-se falar muito bonito e não dizer absolutamente nada. Falar bonito é fácil. Difícil é comunicar uma idéia. A oratória de hoje resume-se em três passos: ter uma idéia, organizá-la e transmiti-la.

ELEMENTOS DA ORATÓRIA

A oratória é arte e ciência ao mesmo tempo. Uma arte porque requer criatividade, e uma ciência porque exige o conhecimento de técnicas e princípios. É a obra da natureza, da arte e da prática, segundo os antigos. Vejamos a seguir alguns elementos indispensáveis à boa oratória.

EFICIÊNCIA - A eficiência é a característica básica da oratória moderna. Ou seja, para ter sucesso, a oratória tem de atingir determinada finalidade. A oratória de hoje se caracteriza por objetividade, concisão, simplicidade e praticabilidade, em contraste com grandiloqüência, verbosidade e linguagem quase poética do passado.
Cristo revolucionou a oratória de seu tempo, porque viveu na época da verbosidade e utilizou a objetividade e a simplicidade de hoje. Pode-se dizer que foi o precursor da oratória moderna.

RETÓRICA - Retórica é a arte de ordenar o discurso. É a capacidade de organizar as idéias e os argumentos. Sem retórica o discurso fica uma salada, com idéias repetidas ou fora de lugar. Quanto mais retórica, mais claro e convincente ficará o discurso.

ELOQUÊNCIA – Eloqüência é a arte de persuadir. Ser eloqüente é fazer um discurso bem sucedido, que alcance os objetivos. No passado ser eloqüente era fazer um discurso sofisticado. Hoje, a eloqüência está mais ligada à simplicidade e à naturalidade. Leon Fletcher menciona dois segredos que levam os oradores profissionais a ter sucesso na eloqüência:
1. Não tentar imitar nenhuma outra pessoa, mas ser um orador com personalidade própria, independente e natural. SEJA VOCÊ MESMO.
2. Não fazer nenhum discurso sem se preparar devidamente. Afinal de contas: “A eloqüência consiste em dizer tudo o que deveria ser dito, e não tudo o que poderia ser dito”. TOME O TEMPO NECESSÁRIO PARA PREPARAR-SE.

1. A PREGAÇÃO BÍBLICA
A pregação bíblica é um milagre duplo. O primeiro milagre é Deus usar um homem imperfeito, pecador e cheio de defeitos para transmitir a perfeita e infalível Palavra de Deus. Trata-se de um Ser perfeito usando um ser imperfeito como seu porta-voz. Só um milagre pode tornar isso possível. O segundo milagre é Deus fazer com que os ouvintes aceitarem o porta-voz imperfeito, escutarem a mensagem por intermédio do pecador e finalmente sejam transformados por essa mensagem. Esse é o grande milagre da pregação!
Ao iniciar um estudo sobre os princípios técnicos para uma boa pregação, algo deve ser dito: as técnicas são indispensáveis, até porque foram pesquisadas em diversos autores considerados especialistas no assunto e são comprovadas pela experiência de pregadores bem sucedidos. Contudo, uma coisa precisa ficar muito clara: todas as técnicas reunidas e colocadas em prática não fazem de alguém um pregador. Para ser um bom pregador é preciso ter técnica e algo mais. Esse algo mais é o milagre do Espírito Santo.
Aos quarenta anos de idade, Moisés conhecia todas as técnicas dos mais variados ramos do conhecimento humano, inclusive da arte de falar em público em diferentes línguas. Anos depois, quando Deus o desafiou a tornar-se pregador, o erudito Moisés respondeu: “Ah! Senhor! Eu nunca fui eloqüente...” (Ex 4:10). Faltava a Moisés algo mais: o milagre! Foi esse milagre que Deus lhe ofereceu quando disse: “Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca, e te ensinarei o que hás de falar” (4:12). Mesmo com relutância, Moisés aceitou o milagre e tornou-se pregador e líder.
Isto é pregação: um poderoso milagre de Deus, o infinito fluindo por via finita, o perfeito chegando até nós por meio do imperfeito, a santidade sendo transmitida através de pecadores e isso tem o poder de transformar outros pecadores.

2. QUALIDADES DO PREGADOR

“A boca fala do que o coração está cheio” Jesus Cristo

Jesus Cristo resumiu numa frase todo o segredo do pode de um orador sacro: o coração! No caso do orador, como de qualquer outro profissional, o que dá poder e autoridade é o que a pessoa é, não que ela faz ou como o faz. Aqui está a razão por que tantas pessoas talentosas não conseguem ir muito longe no sucesso pessoal. É bom ter treinamento, cursos de técnica e de qualidade total, mas nada adianta ter todo o conhecimento intelectual se o coração estiver vazio. Não adianta enfeitar o exterior se o interior está vazio.
O bom orador, especialmente o pregador, precisa ter qualidades técnicas e um estilo de vida elevado. Juntas, essas qualidades lhe darão estrutura pessoal. Vejamos algumas dessas qualidades.

CARÁTER – O orador precisa “ser dotado, principalmente, de qualidades morais, de honestidade, critério e integridade a fim de que suas palavras e ações mereçam crédito e possam comunicar, com sinceridade, ao auditório, a verdade, o bem e o belo” ¹. Ninguém quer ouvir um orador mentiroso e desonesto. Para ser cativante, o orador precisa ter um caráter atraente e respeitável.

ENTUSIASMO – O entusiasmo é o combustível da expressão verbal. O orador precisa vibrar em cada afirmação e empolgar-se com cada idéia. Se a idéia não empolgar o orador, não merece ser dita, e nunca irá empolgar o auditório. Para falar com entusiasmo é preciso viver com entusiasmo. Somente com entusiasmo consegue-se realizar grandes coisas, e é ele o responsável pelas grandes façanhas da humanidade.

DETERMINAÇÃO – Determinação é a vontade indomável d conseguir o que se pretende. Resolva falar bem e tire tempo para se preparar até conseguir. Thomas Edison, inventor da lâmpada elétrica, atribuía seu sucesso a 1% de inspiração e 99% de transpiração. É preciso lutar pelo que se deseja. Se não houver determinação na vida, não vai haver determinação no púlpito.

INSPIRAÇÃO – É a forma como o orador cria o discurso. É a busca de melhores idéias. No discurso secular, a inspiração é natural. No sermão, ela é sobrenatural. É a iluminação que brilha da comunhão com Deus, do estudo intenso da Bíblia, do senso de ser porta-voz da Divindade, da sensação de ter uma idéia de origem divina. Também é importante que a vida do pregador seja inspiração para os outros, pois isso contribuirá para que suas idéias dêem inspiração.

CAPACIDADE DE SÍNTESE – Ela habilita o orador a dizer tudo o que for preciso, somente o que for preciso, e nada mais do que preciso. Como é cansativo ouvir discursos ou sermões cheios de longas expressões que não acrescentam quase nada ao conteúdo. A melhor comunicação é a que expressa mais idéias com menos palavras.

IMAGINAÇÃO E CRIATIVIDADE – A imaginação é a ferramenta da criatividade. É a capacidade de criar imagens agradáveis para tornar os argumentos mais vivos e convincentes. Em vez de dizer as coisas do mesmo jeito que todo mundo diz, imagine uma forma diferente para torná-las interessantes. A maior fonte de imaginação é a própria Bíblia. Cristo era um artista na capacidade de imaginar. Lembra-se da parábola da ovelha perdida?

MEMÓRIA – O orador tem necessidade de cultivar a memória. Não precisa ser um gênio para se habituar a memorizar coisas essenciais. Também não há necessidade de decorar discursos ou sermões, o que aliás é desaconselhável. Mas uma coisa é indispensável ao orador: ter sempre em mente a finalidade do discurso e a ordem das idéias. Ter a sequência na cabeça também ajuda a não ficar muito preso ao papel.

BOA APARÊNCIA – Nenhum orador precisa ser modelo fotográfico ou capa de revista, mas deve cuidar para que sua aparência não atrapalhe. Lêmbre-se: boa aparência ajuda a causar boa impressão.

VOCABULÁRIO – O melhor vocabulário é o que se adapta a qualquer auditório. Deve ser amplo e variado, mas simples e claro para que qualquer pessoa consiga entender. Sempre evite a vulgaridade, a gíria, a sofisticação e palavras técnicas, como escatologia e pneumatologia, por exemplo. A melhor maneira de enriquecer o vocabulário é praticar o hábito da leitura constante.

HUMILDADE – Acima de qualquer coisa, o pregador deve ter consciência de sua total dependência de deus para o cumprimento de sua missão. Por isso, nunca assuma o ar de que é dono da verdade ou a estrela de primeira grandeza. Um espírito sereno e humilde acrescenta poder à mensagem da mesma forma que a arrogância destrói o poder. Mas lembre-se mais uma vez: para ser humilde no púlpito é preciso ser humilde na vida pessoal e no relacionamento com as pessoas.

3. A FONTE DE INFORMAÇÕES DO PREGADOR

“A pregação é a manifestação do Verbo encarnado, a partir do verbo escrito, por meio do verbo falado.” (Bernard Manning)

“Deus falou!” Esse é o fundamento da pregação bíblica. A Bíblia testifica de si mesma como a palavra escrita de Deus. Só no Antigo Testamento, frases como “o Senhor disse”, “o Senhor falou” e “veio a palavra do Senhor” aparecem pelo menos 3.808 vezes. A pregação é, acima de tudo, o testemunho do Deus que fala, do Filho que salva e do Espírito que ilumina.²
Aqui se delineia toda a teologia da pregação. O pregador recebe a autoridade de Deus pela Palavra e faz-se responsável pela Palavra. Por isso, ele não tem o direito de pregar nada que não seja a Palavra de Deus. E ai dele se negligenciar ou vulgarizar o uso da Palavra!

4. O ESTILO DO PREGADOR
O que mais determina o estilo do sermão é o próprio homem. Estilo é a própria pessoa em si. Segundo Killinger, o estilo é a assinatura do pregador no sermão. É a combinação de ritmo, metáfora, dicção, voz, pausa e tudo o mais que coloca a estampa individual do pregador no sermão. Isso significa que o estilo é uma propriedade individual tão íntima e peculiar que não pode ser imitada. Você pode até aprender com o estilo de outro pregador, mas nunca copiá-lo. É Impossível tentar copiar o estilo de outro sem ser artificial, e o público vai perceber que o pregador não passa de um ator de palco.
O sábio Salomão conhecia muito bem o segredo de um estilo por trás das palavras. Foi por isso que ele disse: “Procurou o pregador achar palavras agradáveis, e escrever com retidão palavras de verdade” (Ec 12:10).

Notas
¹ Oratória Eficiente de Hoje, p. 26.
² Michael Duduit, organizador, Handbook of Contemporary Preaching (Nashiville, Broasman Press, 1992), p. 14-15.

5. DICAS IMPORTANTES PARA FALAR EM PÚBLICO
1. Prepare-se para falar.
2. Não confie em discursos de improviso, a não ser que já tenha boa experiência.

3. Seja o mais natural possível. A naturalidade pode ser considerada a melhor regra da boa comunicação.

4. Não confie na memória, leve um roteiro (esboço) como apoio.

5. Use uma linguagem correta. Nossos ouvintes estão cada vez mais exigentes e cultos, portanto, o pregador não pode se dar ao luxo de escorregar na gramática.

- Pratique leitura: “Quem não lê, mal fala, mal ouve e mal vê”

- Evite a exibição de conhecimento próprio. Seu conhecimento intelectual fluirá naturalmente no decorrer do discurso sem que seja necessário forçar.

- Correto uso dos pronomes pessoais: ex: “Nós é”; EU/me; TU/te; ELE/se; NÓS/nos; VÓS/vos; ELES/se.

- Correto uso dos pronomes relativos: ex: “Jesus, a qual morreu...” correto: “Jesus, o qual morreu...”

- Omissão de consoantes: “R” (problema); “S” (Rodrigues Alves)

- Conjugação verbal: “Nós vamo” (Nós vamos), “Eles foi” (Eles foram), “Pra nóis ir” (Pra irmos); “a rente” (a gente)...

- Evite o uso de pleonasmos viciosos: “entrar para dento”; “descer para baixo”

- Evite os vícios de linguagem: “né?”; “tá?”; “entendeu?”; “ã” e vários outros. Como corrigir? Ouvindo o que você fala, tendo consciência de seus vícios e buscando outras palavras em substituição ou simplesmente omitindo as palavras indesejáveis.

6. O cuidado com o uso de recursos audiovisuais:
- Em suas transparências projete apenas a essência da mensagem em poucas palavras. O ideal é escrever tópicos e sub-tópicos ou frases de efeito. Evite textos grandes e também letras muito pequenas, pois isso dificultará a leitura e torna o discurso enfadonho.
- Se vai utilizar filmes, certifique-se com antecedência para ter certeza que vai funcionar.
- Evite de passar em frente da projeção, isso é anti-didático.

7. Cuidado com a postura:
- Mantenha a postura física correta.
- Cuidado com o andar no palco.
- Seja moderado na gesticulação.

8. Cuidados com a fala:
- Fale de maneira calma e pausadamente para facilitar a pronúncia correta das palavras.
- Moderar a altura e a intensidade da voz;
- Cuidado com a utilização do microfone: o ideal é usá-lo a uma distância de cerca de 10 cm da boca.

BIBLIOGRAFIA

Leon Fletcher, Como Falar como um Profissional (Rio de Janeiro, editora Record, 1983), p. 15-16.
Duane Litfin, Public Speaking (Grand Rapids, Baker Book House, 1992), p. 114.
Lloyd-Jones, Dr. Martyn, Pregação & Pregadores. - São José dos Campos: Editora Fiel, 1998.
Marinho, Robson Moura, A arte de pregar: a comunicação na homilética. - São Paulo: Vida Nova, 1999.

A DOUTRINA DA EXPIAÇÃO

A palavra “expiação” ocorre só uma vez na versão do Rei Tiago em o Novo Testamento. Vide Romanos 5:11. Aqui está uma tradução de “katallage”. Este substantivo grego ocorre em três outras passagens: uma vez em Romanos 11:15, onde está traduzido “reconciliando”; uma vez em 2 Coríntios 5:18, onde está traduzido “reconciliação” e uma vez no verso seguinte, onde outra vez está traduzido “reconciliação”.

 

O verbo grego “katallasso”, correspondente ao nome “katallage”, acha-se também em 2 Coríntios 5:18,19; em Romanos 5:10 e 1 Coríntios 7:11. Em cada um destes casos está traduzido para significar “reconciliar”.

 

Segundo o uso do grego, a palavra “expiação” pode ser usada tanto da provisão da base objetiva de salvação, na qual temos uma expiação potencial, como da realização atual da salvação, na qual temos uma expiação atual na aplicação dos benefícios da morte de Cristo e a oferenda do Seu sangue no templo celestial.

 

O verbo grego “katallasso” está usado no primeiro sentido em 2 Coríntios 5:19, onde lemos: “Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo, não lhes imputando os seus pecados”. O sentido aqui é que Deus estava reconciliando o mundo Consigo mesmo por lançar os seus pecados sobre Cristo. Refere-se, pois, a passagem ao que se realizou na morte de Cristo e não ao que se realizou através do Seu ministério Profético, predicante.

 

É neste sentido que a palavra “expiação” é ordinariamente empregada nas discussões teológicas, sentido em que a usamos neste capítulo.

 

I. A IMPORTÂNCIA DA EXPIAÇÃO

 

A expiação é o tema central do cristianismo. Tudo que a precede, olha para frente e tudo que a segue olha para ela atrás. Pode-se ver sua importância revendo os fatos seguintes:

 

1. ELA É O TRAÇO DISTINTIVO DO CRISTIANISMO

 

O cristianismo é a única religião com uma expiação. Conta-se que há alguns anos passados, quando se reuniu uma Parlamento de Religião na Exposição de Chicago, Joseph Cook, de Boston, o orador escolhido do cristianismo, levantou-se, depois de terem sido apresentadas outras religiões, e disse: “Eis aqui Lady Macbeth com as suas mãos manchadas com a morte infame do Rei Duncan. Vede-a como perambula pelas salas e corredores de sua casa palacial, detendo-se para gritar. “Fora, mancha danada! Nunca mais estas mãos ficarão limpas?” O representante do cristianismo virou-se para os adeptos de outras religiões e os desafiou triunfantemente: “Pode alguém de vós que estais tão ansiosos de propagar vossos sistemas religiosos proporcionar qualquer eficácia purificadora para o pecado e a culpa do crime de Lady Macbeth? Emudeceram, porque nenhum deles teve uma expiação a oferecer.

 

2. ELA VINDICA A SANTIDADE E A JUSTIÇA DE DEUS

 

Não podia haver em Deus verdadeira santidade e justiça se Ele permitisse ao pecado passar impune. A santidade proíbe semelhante encorajamento do pecado. A justiça requer retribuição.

 

3. ELA ESTABELECE A LEI DE DEUS

 

Sem expiação a salvação dos crentes deixaria a lei vã, letra morta. Vide Romanos 3:31 e Hebreus 2:2.

 

4. ELA MANIFESTA A GRANDEZA DO SEU AMOR

 

De nenhum outro modo podia Deus ter manifestado maior amor pelo Seu povo do que por dar o Seu único Filho unigênito para morrer em lugar dele povo. Vide João 3:16, 15:13; Romanos 5:8; I João 4:9.

 

5. ELA PROVA A AUTORIDADE DIVINA DOS SACRIFÍCIOS DO VELHO TESTAMENTO

 

Vemos na expiação de Cristo o antítipo mais belo dos sacrifícios do Velho Testamento. E vemos nesses sacrifícios um método efetivo de apontar à necessidade de expiação e um tal quadro da expiação real como guiaria o iluminamento a espiritualmente inculcar através do véu de sombra à verdadeira luz. A divina autoridade dos sacrifícios do Velho Testamento não apresenta dificuldades ao que crê que a morte de Cristo foi substitucionária; mas, os que desejam negar este último fato também sabem que Deus instituiu os sacrifícios de animais do Velho Testamento.

 

6. ELA FORNECE A PROVA DEFINITIVA DOS SISTEMAS TEOLÓGICOS

 

Por sua atitude para com a expiação, os sistemas teológicos classificam-se em pagãos ou cristãos. A oposição deles quanto à expiação também reflete sua idéia da natureza de Deus, de Sua Lei e do pecado.

 

II. A NATUREZA DA EXPIAÇÃO

 

1. IDÉIAS FALSAS DA EXPIAÇÃO

 

(1). A idéia governamental

 

Esta idéia sustenta que o propósito da expiação foi impedir que o perdão dos pecadores por Deus encorajasse o pecado. A salvação dos pecadores não exige que eles levem a penalidade dos seus pecados. O seu virar do pecado para Deus é suficiente para justificar Deus em salva-los; mas o perdão dos culpados, sem alguma exibição do ódio de Deus contra o pecado e de Sua consideração pela Lei, licenciaria o pecado e roubaria qualquer autoridade sobre as consciências dos homens.

 

(2). A idéia de exemplo

 

Esta idéia sustenta em comum com a governamental que a morte de Cristo não foi substitucionária: sustenta que Deus não precisou de ser propiciado em benefício do pecador; que o único óbice à salvação dos pecadores jaz na prática contínua do pecado pelo pecador. Reforma, portanto, é o remédio adequado e isto pode ser efetuado pela própria vontade do homem. Para encorajar-nos nisto Jesus morreu como um nobre mártir, exemplificando uma devoção abnegada que escolheu a morte antes que falhasse do Seu dever a Deus e ao homem. Somos salvos, não por confiar nEle como nosso porta-pecado senão por confiar em Deus segundo Seu exemplo e assim devotando-nos à justiça.

 

(3). A idéia de Influência Moral.

 

Esta idéia sustenta em comum com ambas as primeiras que o pecado não traz culpa que deva ser removida: não é a culpa senão a prática do pecado que impede a salvação. A morte de Cristo foi somente uma exibição de amor para abrandar o coração do homem e leva-lo ao arrependimento. “Os sofrimentos foram necessários, não para remover um obstáculo ao perdão de pecadores que existe na mente de Deus senão para convencer os pecadores de que não existe tal obstáculo” (Strong).

 

(4). A idéia de depravação gradualmente extirpada.

 

Esta idéia está definida por Strong como segue:

 

“Cristo tomou a natureza humana como ela estava em Adão, não antes mas depois da queda, - a natureza humana, portanto, com a corrupção nata e predisposta para o mal moral; que, não obstante a possessão desta natureza inquinada e depravada, Cristo, pelo poder do Espírito Santo, ou de Sua divina natureza, não só guardou Sua natureza humana de se manifestar em pecado atual ou pessoal, mas purificou-a gradualmente, por meio de luta e sofrimento até que na Sua morte Ele extirpou completamente sua depravação original e a reuniu com Deus. Esta purificação subjetiva da natureza humana na pessoa de Jesus constitui Sua expiação e os homens não são salvos por qualquer propiciação objetiva senão somente por se tornarem através da fé participantes da nova humanidade de Cristo”.

 

Há outras duas idéias da expiação que os teólogos comumente discutem sob teorias falsas ou inadequadas da expiação aqui não daremos tratamento especial. Referimo-nos a idéia de acidentes e à comercial. A primeira sustenta que a morte de Cristo foi um acidente imprevisto e não antecipado por Cristo. Esta idéia é tão manifestamente absurda que não merece aqui o espaço que ela tomaria para refuta-la. Não damos aqui atenção especial à idéia comercial da expiação porque ela envolve tanta verdade que achará exame sob a epígrafe da idéia correta da expiação.

 

2. A IDÉIA CORRETA DA EXPIAÇÃO.

 

A idéia correta da expiação, que concebemos como sendo a correta, reconhece o elemento de verdade em cada uma das seguintes teorias que tem recebido especial menção e também combina o que são costumeiramente chamadas idéias comercial e ética, mas esta vai mais longe do que qualquer delas.

 

(1). Verdades reconhecidas noutras idéias.

 

A. Uma falha em punir o pecado derrubaria o governo divino.

 

Este é o elemento de verdade na idéia governamental, mas isto é só um dos muitos elementos de verdade envolvidos na expiação. Uma simples exibição do ódio de Deus contra o pecado sem medir uma justa penalidade, portanto, não consegue e não conserva inteiramente os interesses do governo divino. Qualquer exibição do ódio divino para com o pecado agirá como um óbice ao pecado e assim tenderá a manter governo, mas, até ao ponto em que essa exibição do ódio divino se fruste da justa penalidade, ela fracassa em fornecer um óbide ao pecado que honre completamente o governo divino.

 

B. Na morte de Cristo temos um exemplo inspirador.

 

É um exemplo de abnegada devoção a Deus e ao homem. E o povo salvo (não os perdidos) são mandados seguir este exemplo. Vide Mateus 16:24; Romanos 8:17; 1 Pedro 2:21, 3:17 e 18; 4:1 e 2. Mas, que Cristo não morreu meramente como um nobre mártir, evidente é de Sua própria atitude para com a Sua morte. Se Ele morreu apenas como exemplo, então Ele supriu exemplo muito pobre. Muitos mártires humanos tem ido para a fogueira sem um sinal de angustia; todavia, o Senhor Jesus Cristo suou como se fossem grandes gotas de sangue no horto. Muitos mártires desfrutaram um vívido senso da presença de Deus na hora da morte, mas o Senhor Jesus Cristo foi desertado pelo Pai na hora da morte. Contrastai a atitude de Cristo perante a morte com a de Paulo.

 

C. Na morte de Cristo temos uma exibição de amor de Deus.

 

Vide João 3:16; Romanos 5:8; 15:13; 1 João 4:9. E esta exibição deveria mover os homens ao arrependimento. Este é o elemento de verdade na idéia de influência moral da expiação; mas, que a expiação foi mais do que uma simples exibição de amor far-se-á manifesta ao passo que avançamos.

 

D. Através da morte de Cristo somos feitos participantes da vida de Cristo.

 

Vide 2 Coríntios 4:11; 5:14-17; 12:9 e 10; Gálatas 2:20; 2 Pedro 1:4. Este é o elemento de verdade na idéia de depravação gradualmente extirpada da expiação; mas, atingimos esta nova vida em Cristo em conjunção com a fé nEle como nosso porta-pecado. Esta idéia recém mencionada nega:

 

(2). Outras verdades reconhecidas.

 

A verdadeira idéia da expiação reconhece todas as verdades das outras idéias, mas reconhece mais. Erram os que acentuam um elemento de verdade com exclusão de outros.

 

Outras verdades reconhecidas pela verdadeira idéia da expiação, são:

 

A. A verdade quanto à natureza de Deus.

 

Tudo das falsas idéias a que temos dado especial atenção nega que haja qualquer obstáculo que seja em a natureza de Deus ao perdão dos pecadores. O entrave supõe-se ser todo ele de parte do pecador. O sofrimento de Cristo não foi em nenhum sentido uma satisfação de qualquer princípio em a natureza divina.

 

Assim estas idéias negam, logicamente, a santidade e justiça de Deus. Elas representam Deus como sendo somente amor. A ira retribuitiva contra o pecado não é elemento da natureza divina.

 

Que essa idéias são falsas em respeito à idéia da natureza divina suprida por elas é evidente de Romanos 3:25,26. Aqui se nos diz que Deus estabeleceu a Jesus Cristo não simplesmente como uma exibição cênica do seu ódio contra o pecado para servir às exigências do Seu governo; nem como um exemplo de abnegada devoção ao dever; nem como simples manifestação de amor através do sofrimento do Criador com a criatura; nem ainda como o meio de purificação subjetiva da natureza humana senão como cobertura do pecado (pela expiação), que Sua justiça não fosse impugnada na justificação de homens pecadores.

 

B. A verdade quanto à natureza da Lei.

 

Tudo das falsas idéias de expiação a que temos dado especial atenção representa a Lei de Deus como uma indicação puramente arbitrária que pode ser relaxada parcial ou totalmente à vontade em vez de uma revelação da natureza de Deus com nenhuma possibilidade mais de mudança nos seus requisitos do que há de mudanças em a natureza de Deus. Ela requer um olho por um olho e um dente por um dente; requer que toda transgressão e desobediência deve receber uma justa recompensa de prêmio. Hebreus 2:2. Toda idéia da expiação que for correta deve reconhecer isto.

 

C. A verdade quanto à culpa do pecado.

 

Que essas falsas idéias sob consideração negam que o pecado nos envolve em culpa objetiva que exige expiação. As passagens seguintes ensinam que ele envolve: João 3:36; Romanos 1:18; 2:5,6; 3:19; 6:23; Gálatas 3:10; Efésios 5:5,6; Colossenses 3:5,6; Apocalipse 20:13.

 

D. A verdade quanto à natureza substitucionária da expiação.

 

As passagens seguintes mostram que o sofrimento de Cristo foi um substituto do sofrimento que os crentes suportariam no inferno:

 

“Seguramente Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre Si; nós O reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho. Porém o Senhor fez cair sobre Ele a iniqüidade de nós todos” (Isaías 53:4-6).

 

“... sendo justificados livremente pela Sua graça, pela redenção que está em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para ser uma propiciação, pela fé no Seu sangue, para demonstração da Sua justiça, pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para a demonstração da Sua justiça, pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para a demonstração, digo, da Sua justiça neste tempo presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:24-25). Propiciação é um sinônimo de expiação, que significa “aturar a penalidade toda de um erro ou crime”. A propiciação aplaca o legislador por satisfazer a Lei na “cessão de um equivalente legal completo pelo mal causado”.

 

“... Cristo morreu por nós. Muito mais então, sendo justificados pelo Seu sangue seremos salvos da ira de Deus por meio dele.” (Romanos 5:8,9).

 

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus” (Romanos 8:33). A resposta implicada é: Ninguém! E a implícita razão é: Porque Cristo pagou sua dívida de pecado padecendo a penalidade da Lei em seu lugar.

 

“Cristo é o fim da Lei para justiça de todo aquele que crê.” (Romanos 10:4).

 

“... nossa páscoa também foi sacrificada, mesmo Cristo.” (1 Coríntios 5:7).

 

“... Cristo morreu por nossos pecados, segundo a Escritura” (I Coríntios 15:3).

 

“Aquele que não conheceu pecado. Fê-lo pecado por nós, para que nEle fossemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). Nós nos tornamos justiça de Deus em Cristo, não por meio de qualquer influência moral da morte de Cristo sobre nós, mas pela imputação a nós da justiça através da fé sem as obras.

 

“... Cristo entregou-Se por nós, em oferta e sacrifício a Deus ...” (Efésios 5:2)

 

“... ofereceu para sempre um sacrifício pelos pecados” (Hebreus 10:12).

 

“Porque Cristo também sofreu pelos pecados uma vez, o justo pelos injustos, para que nos trouxesse a Deus ...” (I Pedro 3:18).

 

E. A verdade quanto aos aspectos redentores e resgatadores da expiação.

 

Notai as seguintes passagens:

 

“O Filho do homem não veio para ser ministrado, mas a ministrar e dar Sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20:28).

 

“Mas dEle sois vós em Cristo Jesus, que nos foi feito sabedoria de Deus, justiça e santificação e redenção.” (1 Coríntios 1:30).

 

“Cristo nos redimiu da maldição da Lei, fazendo-Se maldição por nós” (Gálatas 3:13).

 

“Deus propôs Seu Filho ... para que redimisse os que estavam sob a Lei ” (Gálatas 4:4,5).

 

“... em Quem temos redenção por Seu sangue, o perdão de nossos delitos, segundo as riquezas de Sua graça” (Efésios 1:7).

 

“... que Se deu em resgate por todos” (1 Timóteo 2:6).

 

“... que Se deu a Si mesmo por nós para que nos redimisse de toda a iniqüidade” (Tito 2:14).

 

“... pelo Seu próprio sangue entrou uma vez por todas no lugar santo, tendo obtido redenção eterna” (Hebreus 9:12).

 

“Fostes redimidos ... com sangue precioso... mesmo o de Cristo” (1 Pedro 1:18-19).

 

“... foste morto e remiste para Deus com o Teu sangue homens de toda a tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse. 5:9).

 

Nas passagens supra, nas quais “redimir” ou uma de suas cognatas aparece, temos quatro palavras gregas ou suas cognatas: “agorazo”, significando “adquirir no fórum”; “exagorazo”, “adquirir do fórum”; “lutroo”, “soltar por um preço”; “apolutrosis”, “libertar”. As palavras gregas nas passagens em que “resgate” aparece são, respectivamente, “Lutron”, “um preço” e “antilutron”, “um preço correspondente”. O sentido claro dessas passagens, à luz do resto do Novo Testamento, especialmente Romanos 3:25-26, é que a morte de Cristo foi o preço de nosso livramento da penalidade do pecado. Vide mais além Romanos 8:33,34; 10:4; Gálatas 3:13 descreve exatamente como somos redimidos quando nos diz que somos remidos da maldição da Lei por meio de Cristo, que se fez uma maldição por nós. Ele pagou a penalidade que nós devíamos. Por essa razão vamos livres.

 

Notai que “resgate”em 1Timóteo 2:6 significa “um preço correspondente”. Isto quer dizer que o preço saldado por Cristo correspondeu à dívida que devíamos. Em outras palavras, Cristo sofreu o equivalente exato daquilo que teriam de sofrer no inferno aqueles por quem Ele padeceu. Se a justiça de Deus exigiu que Cristo morresse para que Deus justificasse pecadores, a mesma justiça exigiu que Ele pague a penalidade toda devida pelos pecadores. A justiça tanto pode arcar com toda a penalidade como tão facilmente arcar com a mínima parte dela.

 

“Porque Deus tomar como satisfação o que realmente não é tal é dizer que não há verdade em nada. Deus pode tomar a parte pelo todo; o erro pela verdade, o erro pelo acertado ... Se toda a coisa criada oferecida a Deus vale justamente tanto como Deus a aceita, então o sangue de touros e bodes podia tirar pecados e Cristo está morto em vão” (Hodge, Syst. Theol. 2:573-81; 3:188-9).

 

“Deus não mandou Cristo ao inferno para sempre, mas Ele pôs na punição de Cristo o equivalente disso. Ainda que Ele não deu a Cristo beber o inferno atual de crentes, contudo deu-Lhe um quid pro quo – algo equivalente disso. Ele tomou o copo da agonia de Cristo e nele botou sofrimento, miséria e angústia ... o que foi o equivalente exato de todo o sofrimento, toda a desgraça e todas as torturas eternas de todo aquele que por fim estará no céu, comprado com o sangue de Cristo” (Spurgeon, Sermões, Vol. 4, pág. 217).

 

“A penalidade paga por Cristo é estrita e literalmente equivalente à que o pecador teria de levar, conquanto não seja idêntica. O porte vicário dela exclui a última” (Shedd, Discourses and Essays, pág. 307).

 

“A substituição exclui identidade de sofrimento; não exclui equivalência” (Strong, Systematic Theology, pág. 420).

 

Algumas vezes os oponentes à natureza resgatadora e redentora da morte de Cristo perguntam a quem foi pago o preço. E eles um tanto sarcasticamente lembram-nos que alguns se apressaram em dizer que foi pago ao diabo. Não, não foi pago ao diabo; como uma transação comercial, não foi pago a ninguém. Os termos são figurativos. Mas o resultado é o mesmo como se a transação fora de natureza comercial. O preço é a penalidade exigida pela justiça de Deus.

 

Adotamos, portanto, como a verdadeira idéia da natureza da expiação, uma idéia que combina as teorias comercial e ética como estão descritas por Strong. Da teoria comercial aceitamos a idéia expressa em 1 Timóteo 2:6 – o pagamento de um preço correspondente ou equivalente. E, da teoria ética, aceitamos o fato que não foram a honra e a majestade divinas que exigiram a expiação, segundo afirma a idéia comercial, mas os princípios éticos da santidade e justiça de Deus.

 

III. A EXPIAÇÃO E A DEIDADE DE CRISTO

 

Objeta-se algumas vezes que Cristo não podia ter sofrido em poucas horas o equivalente do sofrimento eterno do pecador no inferno, mas esta objeção deixa de tomar em consideração o fato que Cristo era divino e, portanto, infinito em habilidade para sofrer. Ele disse que nenhum homem podia tomar-Lhe a vida; que dEle mesmo a daria. Tendo o poder, portanto de reter Sua vida, à vontade, Ele a reteve através de tamanha intensidade de sofrimento que Ele tragou as últimas feses do veneno do inferno por todos aqueles a serem salvos por Ele. O que pecadores crentes teriam sofrido extensivamente, por serem finitos, Cristo sofreu intensivamente, por ser infinito. Um homem com uma constituição dez vezes tão forte como a que o homem médio pode sofrer em um segundo o equivalente de tudo que o homem mediano pode sofrer em dez. Correspondentemente um ser infinito pode suportar qualquer porção de sofrimento num tempo tão breve quanto lhe apraza faze-lo.

 

IV. A EXPIAÇÃO E A HUMANIDADE DE CRISTO

 

Enquanto foi necessário que Cristo seja divino para suportar numas poucas horas o sofrimento eterno devido a pecadores crentes, também foi necessário que Ele seja humano para suportar o equivalente daquilo que os seres humanos são para aturar no inferno.

 

Talvez foi necessário também que Cristo seja organicamente um com o homem para faze-lo perfeitamente apropriado para Deus aceitar o Seu sofrimento como um substituto para o do homem. Somos responsáveis pela apostasia de Adão porque fomos organicamente um com Adão, da qual os anjos não participaram e em cuja queda não nos envolvemos. Assim parece claro que não teria sido segundo a filosofia divina colocar nossa responsabilidade sobre Cristo sem Ele tornar-se organicamente um conosco.

 

V. A EXTENSÃO DA EXPIAÇÃO

 

Há três teorias quanto à extensão da expiação.

 

1. A TEORIA DE UMA EXPIAÇÃO GERAL PARCIAL

 

Referimo-nos aqui à noção que Cristo pagou a penalidade pelo pecado de Adão na raça inteira. Esta idéia é sustentada em conjunção, usualmente, com a idéia de uma suposta base provisional para a salvação de todos os homens, mas sua natureza necessita de que a tratemos separadamente.

 

Pensa-se, por alguns, que esta teoria é necessária para explicar a salvação daqueles que morrem na infância e imbecilidade nata, mas mostramos uma base escriturística para a salvação dos tais sem esta teoria.

 

João 1:29 é o passo principal citado como uma base para esta teoria. A forma singular de “pecado” acentua-se como se referindo ao pecado de Adão; mas o argumento não tem força, porque há outras numerosas passagens em que se usa o singular em referência aos pecados pessoais de homens num sentido coletivo. Vide Romanos 3:20; 4:8; 6:1; Hebreus 9:26.

Esta teoria supõe que o efeito do pecado de Adão sobre a raça é duplo: (1) imputação de culpa pelo ato ostensivo de Adão em participar do fruto proibido e (2) corrupção da natureza. E implica que a culpa pode ser imputada à parte da corrupção. Isto nós negamos redondamente. Nós tornamos culpados por meio de sua prioridade natural e da qual herdamos uma natureza corrupta. Estamos sob a penalidade do pecado porque pecamos em Adão, sendo nossa natureza uma com ele. Romanos 5:12. Se a culpa fosse imputada sem corrupção, então a Lei exigiu a morte de Cristo, porque Ele teve uma natureza humana; mas a idéia que Ele morreu em qualquer sentido para Si mesmo é totalmente estranha à Escritura. Ele em toda a parte se descreve e se apresenta sem nenhuma culpa de Si mesmo, mas como levando a culpa dos outros. Se Lhe foi imputada culpa pelo pecado adâmico, como necessariamente era o caso se esta culpa é imputada a todo descendente de Adão à parte de corrupção, então Ele conheceu pecado, mas a Escritura diz que Ele não conheceu pecado.

 

2. A TEORIA DE UMA EXPIAÇÃO GERAL.

 

(1) A teoria apresentada.

 

A teoria de uma expiação geral é que Cristo morreu para cada filho de Adão – para um tanto como para outros (* ), removendo do caminho da salvação de todos os homens impedimentos legais e fazendo-a objetivamente possível a cada ouvinte do Evangelho salvar-se. Diz Strong: “As Escrituras representam a expiação como tendo sido feita para todos os homens e como suficiente para a salvação de todos. A expiação, portanto, não está limitada senão a aplicação da expiação.” E outra vez: “A expiação de Cristo fez provisão objetiva para a salvação de todos, por remover da mente divina todo obstáculo ao perdão e restauração dos pecadores, exceto sua contumaz oposição a Deus e recusa de virar-se para Ele.” Diz Andrew Fuller que, se a expiação é vista meramente quanto “ao que ela é suficiente em si mesma e declarada no Evangelho estar adaptada para, ... foi para pecadores como pecadores”; mas que, em “respeito ao propósito do Pai em dar Seu Filho para morrer e ao designo de Cristo em ceder Sua vida, foi para os eleitos só.”

 

Esta teoria da expiação é algumas vezes sumarizada pelo dito que a expiação foi suficiente para todos, mas suficiente somente para os eleitos ou, como alguns prefeririam, para aqueles que crêem. Ou, para pô-lo de outra maneira, diz-se muitas vezes que Cristo é o Salvador de todos os homens provisional e especial ou efetivamente de crentes.

 

Outros têm imaginado que o sacrifício no Calvário foi para todos, mas que a oferenda do sangue de Cristo no céu foi para os eleitos.

 

Tudo dessas afirmações dá na mesma coisa – uma expiação geral com uma aplicação ou designio limitados. Isto cremos e esperamos provar que é uma contradição em termos, contrária à razão, repugnamente à natureza de Deus e não segundo uma interpretação homogênea da Escritura.

 

 

(2). A teoria desaprovada.

 

A. Esta teoria não provê satisfação real da justiça de Deus, ou ela envolve a Deus na injustiça de punir aqueles para quem a justiça foi satisfeita. Eis-aqui um dilema e cada advogado de uma expiação geral escolha a ponta em que se pendure. Uma dessas proposições deve ser verdadeira.

 

A primeira proposição é, provavelmente, a que mais advogados de uma expiação geral são logicamente forçados a aceitar. Nenhuma dúvida que os mais deles subscreveriam a declaração que, se tivesse havido só um pecador para salvar, teria sido necessário a Cristo ter sofrido exata e identicamente o que Ele padeceu. Diz Boyce: “O que Cristo precisou fazer por um homem teria sido suficiente para todos” (Abstract of Theology, pág. 314). Diz Strong: “Cristo não precisaria de sofrer mais, se todos fossem salvos” (Sytematic Theology, pág. 422).

 

Esta noção quanto ao sofrimento de Cristo é totalmente inconsistente com a justiça. Mil pecadores no inferno, merecendo todos o mesmo grau de punição, sofrerão mil vezes tanto como sofrerá cada um deles individualmente. Tomará isto para satisfazer a justiça. Ficará a justiça satisfeita agora em Cristo por todos os mil, se Cristo sofre apenas tanto como sofreria um pecador? Em outras palavras, a justiça exige uma coisa dos pecadores mesmos e outra de Cristo como substituto deles? É isto exatamente o que a teoria de uma expiação geral envolve.

 

A teoria de uma expiação geral não satisfaz a justiça mais do que a teoria governamental. Na morte de Cristo, segundo a teoria de uma expiação geral, temos apenas uma exibição cênica da ira de Deus contra o pecado; então Deus aplica, à vontade, os benefícios disto a quem queira. Noutras palavras, em vista do que Cristo fez, Deus relaxa a justiça rigorosa e salva uma multidão incontável de pecadores que mereciam o inferno, para os quais a justiça não foi atualmente satisfeita. De modo que, em vez de a morte de Cristo proporcionar a Deus o meio de ser justo e ao mesmo tempo salvar pecadores crentes, O habilitar a relaxar Sua justiça.

 

A única maneira de escapar desta última proposição é considerar o arrependimento, a fé e a obediência dos que se salvam como completando o que está faltando na morte de Cristo. Os arminianos podem dizer isto (contudo alguns deles não consideram arrependimento, fé e obediência como sendo meritórios na salvação), mas outros não podem sem render sua crença na salvação como sendo inteiramente da graça de Deus.

 

Alguns podem tentar escapar ao dilema estabelecido no primeiro parágrafo sob esta epígrafe por afirmarem que Cristo sofreu atualmente pelos pecados de todos os homens e que os perdidos no inferno sofrerão apenas pelo pecado de incredulidade continuada. Diversas coisas podiam ser ditas em refutação desta idéia. (1) Deixa o pagão que não ouviu o Evangelho sem sofrer nada no inferno, porque nenhum homem pode ser acusado justamente por não crer em um de quem nunca ouviu falar. Romanos 10:14. Que Deus não acusará aqueles que nunca ouvem o Evangelho do pecado de incredulidade está claro em Romanos 2:12, que nos informa que Deus não julgará pela Lei os que nunca ouviram a Lei. Deus os julgará somente à luz de suas próprias consciências. Romanos 2:14,15. Alguém deve pecar contra a luz antes de poder ser justamente punido por desobediência. Daí, se ninguém sofrerá no inferno por qualquer pecado, exceto o pecado de incredulidade continuada, os que nunca ouvem o Evangelho nada terão por que pagar. (2) Todo crente era culpado do pecado de incredulidade desde o tempo de ouvir o Evangelho até ao tempo de o aceitar. Este pecado de incredulidade, sem dúvida, teve de ser expiado como qualquer outro pecado. Assim Cristo sofreu pelo pecado de incredulidade por aqueles que estão salvos. Agora, se Ele morreu por todos, por um tanto como por outro, o que é necessário se a salvação era para ser feita possível a todos, então Ele morreu pelo pecado de incredulidade por todos os homens. Isto deixa a qualquer que for para o inferno absolutamente sem pecado algum por que sofrer. Se Cristo não morreu pelo pecado de incredulidade de todos que o cometeram, então Ele não morreu suficientemente para a salvação de todos. (3) A Bíblia claramente ensina que os perdidos no inferno sofrerão por todos os seus pecados. Romanos 2:5,6; 2 Coríntios 5:10; Efésios 5:5,6; 2 Pedro 2:9-13; A. S. V.; Apocalipse 20:13.

 

B. Esta teoria é fútil, naquilo em que ela não é necessária como uma base de qualquer fato escriturístico, dever, ou resultado, ou como prova de qualquer verdade revelada.

 

(a). Não se discute que Deus estava sob a obrigação de prover redenção por todos os homens, sem exceção, porque um argumento tal excluiria a graça da expiação. A graça quer dizer não somente favor imerecido senão também favor não devido. Graça e obrigação excluem-se mutuamente. Ainda mais, se Deus foi obrigado a prover redenção por todo filho de Adão, da mesma maneira Ele seria obrigado a dar a cada um a habilidade de receber essa redenção pela fé. Isto Deus não fez, segundo mostramos no prévio capítulo sobre a eleição (*).

 

(b). Ademais, não era necessário que Deus provesse uma expiação geral para fazer os homens responsáveis pela rejeição de Cristo. Os homens rejeitam a Cristo, não por causa de uma falta de expiação para eles, mas por causa de amarem as trevas mais do que a luz (João 3:19); por causa de não quererem que Ele reine sobre eles (Lucas 19:14).

 

(c). Nem foi necessário que Cristo morresse por toda a raça adâmica para que Deus fizesse sincera Sua chamada geral. É da noção de alguns que a chamada geral de Deus requer de todos os homens crerem que Cristo morreu por eles. Isto não é verdade. Os vinte e oito capítulos de Atos, “ainda que repletos de informações sobre relações apostólicas com as almas, não arquivam precedente algum que seja desse discurso agora popular aos inconvertidos – Cristo morreu por vós (Sanger, Os Redimidos)”. “Todos os homens são chamados na Escritura a crerem no Evangelho, mas não há um caso na Escritura em que os homens são intimados a crer que Cristo morreu por eles.” (Carson, “The Doctrine of the Atonement and Other Treatises”, Pag. 146).

 



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